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A entrevista mais importante que você (talvez) não viu
Exatamente um ano atrás, publicamos no Market Makers a entrevista feita com o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT).
2 de novembro de 2025. Exatamente um ano atrás, publicamos no Market Makers a entrevista feita com o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT).
O motivo da conversa: Fonteles era indicado, tanto por petistas quanto por não-petistas, como alguém que merece ser ouvido, por ter ideias que representam uma esquerda mais moderna. E nós, que gostamos de ouvir todos os pontos de vista, lhe fizemos o convite.
Em 11 meses no ar, a entrevista teve 10 mil visualizações. Até que na última semana, logo após Lula vencer a eleição presidencial e o nome de Rafael Fonteles ser cogitado como possível ministro da Fazenda do “Lula 4”, a entrevista explodiu de audiência.
O vídeo ganhou 100 mil novas visualizações entre segunda e sábado desta semana.
Pra você que não viu este episódio, o link está aqui. Mas aos mais apressados, deixarei um breve resumo do que foi essa conversa.
Rafael Fonteles tem 41 anos, é matemático formado e com mestrado no IMPA e conseguiu uma façanha única no mundo de ser medalhista em 3 olimpíadas internacionais: química, física e matemática. Foi empreendedor na área de educação e assessor de investimentos (sim, ele já trabalhou no mercado financeiro).
A história dele começa no berço. O pai, médico e professor de matemática, foi um dos fundadores do PT no Piauí, deputado estadual, deputado federal e candidato a governador em 1986, quando o Rafael tinha um ano de idade. Um “socialista convicto”, nas palavras do próprio filho, que nunca torceu o nariz pro filho empreender e ganhar dinheiro. Mas que também fez uma exigência curiosa: enquanto ele estivesse na política, o filho não entrava.
O filho obedeceu. Fez carreira acadêmica acelerada, abriu empresa, passou pelo mercado financeiro. Até que, em 2015, aos 29 anos, recebeu o convite de Wellington Dias para ser secretário da Fazenda do Piauí. Ficou quase oito anos no cargo, presidiu o Consefaz (o conselho que reúne os secretários de Fazenda dos estados) por quase quatro anos e atravessou dois testes de fogo: a crise fiscal dos estados entre 2016 e 2018 e a pandemia.
Em 2022, na primeira eleição que disputou na vida, venceu para ser governador do Piauí no primeiro turno. Agora em 2026, foi reeleito, também no primeiro turno.
Detalhe interessante: em nossa entrevista, ele disse, por mais de uma vez, que trata a política como “passagem”, não como carreira. Pretendia disputar a reeleição, governar até 2030 e voltar pro setor privado. Se vai cumprir, o tempo dirá.
No dia da entrevista, trouxe dois dados que mostram duas faces do Piauí: entre 2002 e 2022, o estado teve o quarto maior crescimento econômico do país (+105% de avanço do PIB); no entanto, ele ainda tem o terceiro menor PIB per capita do Brasil. Ou seja, cresceu muito, mas partiu de muito longe.
A tese dele se apoia em cinco vocações:
1 – Agro, que segundo ele vive hoje o que o Centro-Oeste viveu há 20 ou 30 anos, com terra mais barata, reserva hídrica e espaço pra frigoríficos, usinas de biocombustível e beneficiamento de algodão.
2 – Energia verde: o estado produz cerca de 7 GW e consome só 1 GW, com uma matriz elétrica que ele diz ser 99,75% limpa — o que faz do Piauí, na visão dele, candidato natural a data centers, hidrogênio verde e siderurgia verde.
3 – Mineração, com ferro e níquel já em exploração e potencial em potássio, fosfato e terras raras.
4 – Economia digital.
5 – Turismo de experiência.
Na educação, Fonteles disse que inteligência artificial virou disciplina obrigatória. A maioria das escolas tem robótica, programação, educação financeira e empreendedorismo. E há 50 mil estudantes do ensino médio fazendo curso técnico na área de economia digital. A ideia é simples: daqui a três ou quatro anos, o jovem médio piauiense de 20 anos vai estar muito mais qualificado.
Mas por que alguém com esse currículo está no PT? Para ele, o que une o partido é a redução das desigualdades sociais. Um dado incômodo que ele trouxe: o Brasil é mais desigual que a Índia. Pra ele, o papel do governo é mediar interesses que muitas vezes são antagônicos. O mercado, por exemplo, busca o ideal para o mercado, diz Fonteles.
Talvez a parte mais inspiradora da conversa tenha sido a de transformação digital. O exemplo do celular roubado é daqueles que dá vontade de copiar.
A equipe da secretaria de segurança pegou os boletins de ocorrência de celulares roubados, com o IMEI de cada aparelho, e pediu à Justiça que obrigasse as operadoras a informar quais linhas estavam rodando naqueles aparelhos. Depois mandou uma mensagem automática por WhatsApp pra quem estava usando: devolva o celular, ele é fruto de roubo.
Resultado: 62% devolveram espontaneamente. E, o mais importante, o roubo de celular caiu 55%, porque comprar celular sem nota fiscal deixou de compensar. Fonteles diz que todos os estados visitaram o Piauí para conhecer o modelo, sendo que 22 implementaram.
Na saúde, uma plataforma digital oferece consultas em 12 especialidades, 24 horas por dia, pra uma população de 3,3 milhões de pessoas. Foram 1 milhão de atendimentos em 16 meses.
Falamos também de reforma política: Fonteles diz que, se tivesse que escolher uma reforma, seria essa. Defende coincidência de eleições, fim da reeleição e voto distrital misto no modelo alemão — parte dos parlamentares eleitos por distrito, parte pela lista do partido.
A conversa ia muito bem. Mas quando falamos sobre a gestão econômica do Lula 3, Fonteles fez uma defesa completa ao governo em sua resposta.
Embora ele tenha dito que o primeiro ano de mandato é o momento de fazer as reformas difíceis, Lula não pode fazer isso porque 2022 deixou uma herança de programas sociais turbinados num nível que nem os governos do PT tinham feito, somado ao corte do ICMS dos combustíveis, que machucou o caixa dos estados.
Ele disse ainda que o arcabouço estava sendo cumprido. Mas quando mirei a preocupação para 2027 — quando as despesas obrigatórias praticamente engolem o espaço das discricionárias e o próprio arcabouço fica difícil de sustentar — a resposta foi: “não precisa se precipitar”.
Na ocasião, Fonteles disse que Lula faria em 2027 o que não fez em 2023 caso ganhasse a reeleição (o que de fato se confirmou). O problema é que Fonteles colocou como condição para isso um congresso mais alinhado ao PT – o que claramente não veremos, haja vista a eleição da Câmara e do Senado.
Fonteles foi além e trouxe a discussão teórica sobre a meta de inflação. Para ele, se a meta saísse de 3% para 4%, os juros já estariam caindo. Fez questão de dizer que não estava defendendo a mudança, só registrando o debate. Eu disse o que penso: mexer na meta agora geraria ainda mais desconforto no mercado.
Um ponto que Fonteles acerta em cheio e que deveria ser bandeira de qualquer pessoa com bom senso fiscal, de direita ou de esquerda: incentivos fiscais e supersalários.
Sobre os incentivos, ele lembra que boa parte deles serve pra privilegiar setores que “capturaram um pedaço do Estado”. Cortar esse gasto tributário poderia render, nas contas dele, entre R$ 30 bilhões e R$ 100 bilhões.
Sobre os supersalários, disse que existe hoje “uma corrida para o teto”. As corporações chegam ao teto e depois inventam verbas “indenizatórias” pra furar o teto. Menos de 1% da população se beneficia disso. Pra ele, esse deveria ser o tema número um da reforma administrativa. Não resolve o Brasil, mas passa uma régua moral num país que vive pedindo sacrifício do resto.
Repito aqui o que tenho dito para todos que me perguntaram sobre esta entrevista: saí muito impressionado da entrevista com o Rafael e, dentro das possibilidades do quadro do PT, ele é indiscutivelmente um dos melhores nomes para este cargo – se não o melhor.
Mas o que enfrentaremos em 2027 é muito sério e vai exigir dedicação e muita habilidade política. O sucesso vai precisar de muito mais que medalhas olímpicas ou uma história promissora na política.Torço para o melhor, mas estando sempre preparado para o pior.
ps: pra quem viu o episódio e ficou curioso sobre o livro mencionado pelo Rafael Fonteles do que foi feito no Piauí, o link está aqui.