O mito da caverna é uma alegoria de Platão escrita por volta de 380 AC. Em resumo: prisioneiros vivem acorrentados no fundo de uma caverna, de costas para a entrada. Veem através da luz criada por uma fogueira diversas pessoas passando e carregando objetos. Para eles, aquilo é o mundo. Um dia, um prisioneiro é libertado. Ao sair da caverna, fica cego pela luz do sol, mas aos poucos se acostuma e passa a ver as coisas reais e, por fim, o próprio sol. Ele poderia fazer duas coisas: voltar para a caverna e libertar os seus companheiros ou viver a sua liberdade. A possível consequência do retorno seria ser tomado como louco pelos outros. Mas essa também seria a coisa certa a fazer: dizer a todos que o que é visto da caverna para dentro não é o mundo, mas uma reprodução dele.
Essa alegoria me veio à mente ao ouvir as duas bolhas das quais faço parte – e me fez sentir como o prisioneiro liberto. O mercado é uma caverna. A sociedade fora dele, é outra. E a pacificação entre esses dois entes depende de que ambos saiam da caverna para ver o mundo lá fora.
Com a reeleição de Lula no último domingo, a bolha que fica do centro para a esquerda sentiu como se tivesse vencido o mercado. O mercado, esse homem branco hétero sem rosto que vê todas as pessoas como cifrões e está disposto a usar seu pé de Golias para esmagar os Davis pelo caminho se isso trouxer mais dividendos.
Na mesma toada, o mercado, que embora faça parte da sociedade, por vezes se posiciona como à parte dela, sentiu-se prejudicado pela eleição de Lula, garantida pela sociedade populista, interessada em benesses sociais, em trabalhar pouco, odiar o patronato e gastar dinheiro público, tal qual um hipotético Macunaíma contemporâneo.
Do lado de fora da caverna, Macunaíma e Golias não existem.
O mercado é formado por pessoas que têm sonhos, ideias, famílias e histórias. Pessoas que querem que a Bolsa vá bem não apenas porque tem dinheiro investido nela, mas porque o capital aberto é uma forma legítima de desenvolver empresas e gerar empregos e renda para…a sociedade que tanto ao mercado rejeita.
A sociedade fora do mercado não é uma horda de preguiçosos. É formada por pessoas que não querem depender de benefícios sociais, mas não encontram alternativas dignas de subsistência e, por isso, temem perdê-los. Por gente que não teve as mesmas oportunidades que outras pessoas, que passa 6/7 da vida longe da família em trabalhos extenuantes e sem perspectiva. Que não vai conseguir se qualificar e mudar de vida se trabalhar 44 horas semanais e gastar outras 12 horas numa única semana no trajeto para o trabalho.
O mercado não quer economizar dinheiro público para que ele vá para o seu bolso. É porque entende que o gasto público causa dívida pública que reflete em juros e em inflação – que bate mais forte não nos mais abastados, mas justo no bolso dos menos ricos. São pessoas que não estão em casas de luxo tocando teclas de computador comprando e vendendo ações e vivendo de renda. Estão trabalhando, também longe de suas famílias, tentando sobreviver e evoluir.
O pulo do gato é que as cavernas não surgiram por geração espontânea. Elas surgem como projetos de poder que se beneficiam do “nós contra eles” e do fato de que, os poderosos, por estarem fora da caverna, estão em vantagem competitiva. Só eles veem o mundo como ele é – e como as cavernas que criaram o enxergam.
Pacificar o país não é a união de direita e esquerda. Isso vai seguir existindo no regime democrático ainda que mude de modelos, nomes e termos. Pacificar o país é derrubar as cavernas, trazer todo mundo para fora e fazer entender que tudo o que se via até então eram sombras da fogueira.
No mundo fora da caverna, é possível o entendimento e a cooperação entre as partes. A sociedade entendendo que o mercado é parte essencial para que ela evolua. O mercado entendendo que a sociedade não quer destruí-lo, quer apenas sobreviver dignamente.
Infelizmente, quando se debate e dissemina a lista das empresas que apoiaram X e devem ser boicotadas e a lista de pessoas que deveriam ser demitidas porque votaram em Y, a caverna fica mais alta, suas paredes mais robustas. E quem ganha é quem está fora dela, vendo tudo de camarote enquanto compra do X, emprega o Y e vive sozinho as benesses do país como ele poderia ser.
Mas num mundo em que cada vez mais construímos cavernas e chamamos de bolhas como forma de referendar apenas aquilo que consideramos que é o mundo, quanto tempo vai levar até que o primeiro perceba que as sombras não são a realidade?