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Quatro reflexões depois das eleições

Depois de um dia como esse, existem duas maneiras de reagir a uma desvalorização do patrimônio: procurar culpados ou procurar aprendizados.

Matheus Soares

Por Matheus Soares

29 Oct 2026 17h36 - atualizado em 29 Oct 2026 05h45

A surpreendente virada de Lula nas eleições presidenciais provocou uma reação forte nos ativos brasileiros na segunda-feira. O Ibovespa caiu quase 14%, o Índice Small Caps recuou aproximadamente 27%, o dólar disparou e algumas ações chegaram a perder 60% de seu valor em um único pregão. A cota do Market Makers FIA recuou 18,8%.

Depois de um dia como esse, existem duas maneiras de reagir a uma desvalorização do patrimônio: procurar culpados ou procurar aprendizados. Passei os últimos dois dias pensando sobre a segunda coisa e gostaria de compartilhar quatro reflexões com você.

A primeira é que é necessário sobreviver ao cenário não esperado.

Nas últimas semanas, recebi diversas perguntas sobre aumentar nossa exposição a empresas mais alavancadas, com balanços frágeis e sensíveis à queda dos juros. A lógica parecia convincente: diante da expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro, essas empresas poderiam experimentar valorizações extraordinárias.

O problema é que existe uma diferença enorme entre construir uma carteira que se beneficia de determinado cenário e construir uma carteira que depende daquele cenário para sobreviver.

Ao longo dos últimos anos, repetimos inúmeras vezes que buscamos empresas capazes de prosperar independentemente de quem ocupe a Presidência da República. Negócios com balanços sólidos, pouca alavancagem, geração de caixa e vantagens competitivas.

Isso significa que essas empresas não vão cair quando o mercado entrar em pânico? Evidentemente que não. Mas existe uma diferença entre uma empresa cujo preço cai violentamente e uma empresa cujo negócio pode ser permanentemente comprometido por uma mudança de cenário.

Investir é uma maratona de décadas. Não adianta ganhar muito dinheiro durante alguns anos se, para isso, você assume o risco de perder tudo em um único evento.

A segunda reflexão é sobre o perigo da euforia e das nossas próprias convicções.

Nas semanas anteriores às eleições, o mercado brasileiro experimentou uma valorização extraordinária. Ações subiam, os juros caíam e o dólar recuava. A cada novo pregão, a sensação de que determinado resultado eleitoral estava garantido parecia aumentar.

E é justamente nesses momentos que precisamos redobrar a atenção.

Quando acreditamos fortemente em alguma coisa, tendemos a procurar notícias, opiniões e informações que confirmem nossas expectativas. É o chamado viés de confirmação. E quanto mais confiantes ficamos, menos espaço deixamos para a possibilidade de estarmos errados.

O mercado nos lembrou, da maneira mais dura possível, que probabilidade não é certeza e que comprar ao som dos canhões e vender ao som dos violinos é muito mais fácil na teoria do que na prática.

A terceira reflexão é sobre humildade e a importância de continuar aprendendo.

O mercado tem uma capacidade extraordinária de nos lembrar que sabemos muito menos do que imaginamos. Podemos estudar empresas durante meses, conversar com executivos, construir modelos sofisticados e acompanhar os acontecimentos diariamente. Ainda assim, podemos estar errados.

O problema não está em errar. Está em construir uma estratégia que não admite a possibilidade de erro.

Uma das reflexões que fiz depois de ontem foi sobre a importância de avaliar proteções em momentos de grande assimetria de risco. Mesmo quando um cenário parece altamente provável, precisamos considerar o custo de nos proteger caso ele não se concretize.

É claro que é muito mais fácil enxergar isso depois do acontecimento. Mas acredito que esse é um aprendizado legítimo.

Por fim, a quarta reflexão é algo que não podemos esquecer: a vida continua.

Hoje o sol nasceu novamente. As empresas continuam operando, seus funcionários continuam trabalhando e milhões de brasileiros continuam acordando cedo para construir suas vidas.

Daqui a quatro anos, teremos outra eleição. E, até lá, enfrentaremos inúmeras crises, oportunidades e acontecimentos que hoje sequer conseguimos imaginar.

Nosso trabalho continua sendo o mesmo: estudar empresas, procurar bons negócios, avaliar riscos, reconhecer erros e melhorar continuamente.

Não sei o que acontecerá com o mercado brasileiro nos próximos meses. Mas sei que boas empresas continuarão existindo e que momentos de grande desespero frequentemente criam oportunidades que dificilmente aparecem quando todos estão otimistas.

No fim das contas, investir bem exige muito mais do que saber analisar balanços ou calcular o valor justo de uma empresa. Exige temperamento, disciplina e humildade.

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Matheus Soares
Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br