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Os três fatores que fizeram Lula virar a eleição
Depois de quase 6 horas de live no domingo, me debrucei nos números
Na noite do primeiro turno, o placar era claro: Flávio Bolsonaro 2,22 milhões de votos à frente do Lula. Ontem, o jogo virou: segundo turno terminou com Lula cerca de 4,39 milhões de votos na frente.
Fazendo uma continha de padeiro: o saldo entre os dois andou 6,61 milhões de votos em três semanas.
“Ah, Salo, mas isso é fácil de explicar. Os votos da terceira via foram pro Lula e pronto.”
Não é bem assim. E é aí que mora a parte interessante.
Depois de quase 6 horas de live no domingo, me debrucei nos números estado a estado pra tentar entender o que explicou essa virada (com o devido aviso de que parte do segundo turno ainda é estimativa, falo disso no final). E o que eles mostram é que a virada não teve um motor só. Teve três.
PRIMEIRO, DE ONDE VEIO O VOTO NOVO
Antes dos fatores, a conta que organiza todo o resto. Somados, Lula e Flávio tiveram cerca de 14 milhões de votos a mais no segundo turno do que no primeiro. Esses votos vieram de três lugares:
Eleitores dos outros 10 candidatos: 9,32 milhões
Gente que faltou no 1º turno e apareceu no 2º (saldo): 2,98 milhões
Brancos e nulos a menos: 1,73 milhão
Desse bolo, Lula levou 10,32 milhões, cerca de 74%. Flávio ficou com 3,71 milhões.
Uma eleição de segundo turno não é a soma do primeiro turno com os apoios declarados. É um jogo novo, com eleitor novo na mesa.
FATOR 1: A CONVERSÃO DA TERCEIRA VIA
Os 9,32 milhões de votos que foram para os outros candidatos no primeiro turno eram, de longe, a maior fatia em disputa. E foram o primeiro motor da virada.
O lugar onde isso fica mais escancarado é o Sudeste. Ali, os outros candidatos tinham somado 4,34 milhões de votos. Lula ganhou 4,64 milhões entre um turno e outro; Flávio, 1,77 milhão. O Sudeste respondeu sozinho por cerca de 43% da virada.
São Paulo é o caso-símbolo. Os outros candidatos tinham 2,46 milhões de votos no estado. Lula cresceu perto de 2,5 milhões; Flávio, cerca de 1,1 milhão. Resultado: o saldo paulista andou 1,42 milhão de votos a favor do Lula. Flávio continuou vencendo em São Paulo, mas a vantagem caiu de 3,42 milhões para cerca de 2 milhões.
E Minas Gerais, o estado que historicamente escolhe o presidente, foi a única virada estadual da eleição: de Flávio 0,59 milhão à frente para Lula 0,10 milhão à frente.
Mas aqui vem o detalhe que desmonta a explicação fácil: o ganho total do Lula (10,32 milhões) é maior do que todos os votos da terceira via somados (9,32 milhões). Mesmo que ele tivesse herdado 100% desses eleitores, o que não aconteceu, ainda faltaria voto.
A terceira via decidiu muito. Mas não decidiu sozinha.
FATOR 2: A QUEDA RARA DE ABSTENÇÃO, BRANCOS E NULOS
No primeiro turno, 33,47 milhões de brasileiros não foram votar. Isso dá 21,1% do eleitorado, a maior taxa desde 1998 e um recorde em números absolutos.
No segundo turno, a abstenção caiu para cerca de 30,5 milhões (19,2%). São cerca de 3 milhões de ausentes a menos. Pra colocar em perspectiva: desde a redemocratização, foi só a segunda vez que a abstenção caiu do primeiro para o segundo turno. A primeira tinha sido em 2022.
E não parou aí. Os votos brancos e nulos também despencaram, de 5,98 milhões para cerca de 4,2 milhões.
Em português de gente normal: quase 5 milhões de pessoas que, no primeiro turno, não escolheram ninguém, resolveram escolher no segundo.
Onde isso pesou mais? No Nordeste. Ali, os outros candidatos tinham só 1,81 milhão de votos para distribuir. Lula cresceu 2,86 milhões. A conta só fecha com gente nova chegando na urna. E tem um efeito matemático cruel pro adversário: quando mais gente vota numa região onde Lula tem perto de 70% dos votos, a margem dele cresce automaticamente. O Nordeste respondeu por cerca de 38% da virada.
Um exemplo com dado oficial: no Rio Grande do Norte, o número de ausentes caiu de cerca de 488 mil para 427 mil.
Agora, pra ser justo com os números: a mobilização não foi de um lado só. Nos estados com dado oficial, as maiores altas no total de votos válidos foram no Rio Grande do Sul (+276 mil), em Santa Catarina (+137 mil) e em Goiás (+103 mil), redutos do Flávio. Ou seja, a campanha dele também foi buscar eleitor em casa. Só que, mesmo nesses estados, Lula ficou com a maior parte do aumento.
Um adendo: no dia do segundo turno, o STF prorrogou a votação nas seções que ainda estavam abertas, decisão contestada pela oposição. Não há dado para medir quanto isso pesou no comparecimento.
FATOR 3: O MAIS IMPROVÁVEL, VOTO QUE JÁ ERA DO FLÁVIO
Aqui eu preciso ser honesto com todos os 3 leitores desta newsletter: este é o fator mais improvável e também o mais difícil de cravar.
Em qualquer segundo turno, a premissa básica é que quem votou num finalista no primeiro turno repete o voto. Flávio terminou o primeiro turno na frente. Era de se esperar que ele, no mínimo, segurasse o que tinha.
Em três estados, não segurou. No Acre, Flávio caiu de cerca de 300 mil para 290 mil votos. No Amapá, de 210 mil para 200 mil. No Tocantins, ficou parado em torno de 470 mil. Enquanto isso, Lula cresceu nos três. O Amapá saiu de um empate para vitória do Lula; no Tocantins, a vantagem do Flávio encolheu de 70 mil para cerca de 20 mil votos.
Um candidato que lidera o primeiro turno e perde voto absoluto no segundo é um sinal que não tem como não olhar.
Mas, e esse “mas” é grande: os dados são saldos agregados. Eles mostram quanto cada candidato ganhou ou perdeu, não o caminho de cada eleitor. Nesses três estados, o total de votos válidos caiu (Acre −37 mil, Amapá −43 mil, Tocantins −20 mil), e no Acre a abstenção subiu de cerca de 125 mil para 160 mil. Parte do voto que sumiu do Flávio pode ter simplesmente ficado em casa, e não migrado para o Lula.
E a escala é pequena: estamos falando de dezenas de milhares de votos, num país em que Flávio cresceu 3,71 milhões entre os turnos.
O que dá pra dizer com segurança: nas bordas do mapa, o eleitorado do Flávio mostrou rachaduras que ninguém esperava. O que não dá pra dizer, com esses dados, é que foi isso que virou a eleição.
O QUE FICA
O mapa quase não mudou de cor. Lula ganhou mais votos que Flávio em todos os estados, mas só Minas trocou de lado. O que mudou foi a intensidade: o vermelho se aprofundou no Nordeste, o azul clareou no Sudeste. Todos os 27 estados andaram na mesma direção.
Sem querer dourar a pílula, a reação no mercado deve ser a pior possível: estamos mais fragilizados economicamente do que 4 anos atrás, Lula abriu um pacote de benesses que certamente não vai retirar depois da eleição, a economia já está guinando para baixo e temos um congresso + Senado claramente contrário ao Lula. As sinalizações sobre como será o novo governo serão bem mais importantes do que acompanhar o pregão de hoje.