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O agro está dando calote?

Uma coisa sobre mim que pouca gente sabe é que já fui jornalista do Globo Rural, o tradicional programa das manhãs de domingo.

Leopoldo Rosa

Por Leopoldo Rosa

29 May 2026 10h00 - atualizado em 29 May 2026 01h09

E quando a gente se aproxima desse universo, uma coisa fica clara: existe o agro e o agro.

Ou seja, existem as empresas do agro, grandes companhias que ditam as tendências globalmente e projetam o Brasil no exterior. E existe o agro das pequenas produções, da agricultura familiar e das empresas menores que batalham para parar em pé com um juro alto e uma inflação insistente. 

Nos últimos dias me deparei com diversas notícias falando sobre a situação financeira do agronegócio. Fizemos até um conteúdo para as redes sociais do Market Makers, foram 1990 pedidos de recuperação judicial em empresas do agro no ano passado. Esse dado, somado ao fato de que no mesmo 2025, o agro foi a alavanca do nosso PIB, desperta, no mínimo, uma curiosidade. 

Decidi me dedicar um pouco mais a essa pesquisa e tentar explicar – primeiro para mim mesmo e depois abertamente aqui – o que está acontecendo.

Aqui vai um pouco do que eu descobri, como sempre, em cinco pontos. 

PONTO 1 – Como o setor que mais cresce virou o que mais pede socorro

Esse número de recuperações judiciais que eu comento acima representou um aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, o Brasil bate recordes de produção e exportação. São dois fatos verdadeiros, simultâneos e aparentemente contraditórios.

O setor fechou 2025 com cerca de R$ 879 bilhões em exportações e superávit de aproximadamente R$ 775 bilhões, respondendo por quase metade das vendas externas do país. Ao mesmo tempo, o endividamento rural alcança patamares estimados em torno de R$ 188 bilhões — o equivalente a aproximadamente duas safras e meia de geração de caixa. É como se o Brasil fosse um grande exportador que não consegue pagar suas próprias contas.

Para o investidor, esse paradoxo é o ponto de partida de uma análise importante. O agro brasileiro não está fraco na produção. A análise dos dados parece apontar que o agro está fraco nas margens, no caixa e na estrutura financeira.

PONTO 2 – Custo subindo, commodity caindo e o produtor no meio

Quem planta soja em Mato Grosso conhece bem essa sensação. Segundo dados publicados em reportagens sobre o assunto, a expectativa é que a margem bruta estimada para o produtor de soja com terra própria deve recuar 47,6% na safra 2025/26, passando de R$ 2.325,50 por hectare para R$ 1.219,60 por hectare. Para quem trabalha com áreas arrendadas, a margem bruta projetada se torna negativa: -R$ 229,50 por hectare. Ou seja, plantar para perder dinheiro.

Os preços das commodities caíram enquanto os custos de produção seguiram subindo. O fator de maior peso na compressão da margem foi a queda projetada de 13,3% no preço médio da soja, enquanto os gastos com fertilizantes aumentaram 17,7% no mesmo período. Os fertilizantes, vale lembrar, são majoritariamente importados e sensíveis a conflitos geopolíticos, câmbio e à política de exportação da China. Ou seja, grande momento! Só que não. 

Essa combinação de preços baixos, custos altos, juros elevados e instabilidade climática já dura quatro safras consecutivas. E consumiu as reservas de quem não tinha colchão financeiro suficiente.

PONTO 3 – Com Selic a 15% (ou quase 15%), a matemática não fecha

O agronegócio é um negócio de capital intensivo. Máquinas, insumos, arrendamento, mão de obra — tudo isso precisa de financiamento antes de a safra ser colhida. Em ambiente de juro baixo, esse modelo funciona. Mas isso a gente não tem faz tempo. 

A dívida financeira do agronegócio gira em torno de R$ 188 bilhões. Com a taxa básica em cerca de 15%, o risco do agronegócio faz com que o custo final do crédito supere 20% ao ano para muitos produtores. Daí, efeito borboleta ligadíssimo, isso cascatou nos balanços dos bancos.

No primeiro semestre de 2025, o índice de inadimplência do Banco do Brasil, maior agente financeiro do setor, subiu para 4,21%, puxado pelo agronegócio — contra 3% no início de 2023. Na Caixa Econômica Federal, o segundo trimestre de 2025 encerrou com 7,02% de inadimplência do agro, o que levou o banco a restringir o crédito ao setor. 

PONTO 4 – eventos extremos quebraram safras

Se os juros foram o combustível da crise, o clima foi um baita gatilho. As principais causas para o cenário de inadimplência no campo são os recorrentes problemas climáticos nos últimos anos, a queda nos preços das commodities, a alta nos custos de produção e a falta de seguro rural. Esse último ponto merece atenção especial: o Brasil ainda é um país em que a maioria dos produtores opera sem seguro agrícola.

Daí, um número fala por si: 96% dos inadimplentes sofreram pelo menos duas quebras de safra em cinco anos. Até a Raízen, que atravessa uma crise sem precedentes, foi vítima disso. Parte da produção de cana de açúcar da empresa queimou numa série de incêndios no interior de São Paulo há alguns anos – e a terra até agora não se recuperou completamente. 

PONTO 5 – Recuperação possível

A boa notícia é que o cenário começa, lentamente, a mudar de direção. O Banco do Brasil projeta melhora nos índices de inadimplência para o segundo semestre de 2026, à medida que a carteira prorrogada de R$ 64,4 bilhões se estabilize. O Desenrola Rural, programa de renegociação do governo, já registra mais de 313 mil renegociações em todo o país. Ou seja, estão sendo buscadas e projetadas soluções, um bom começo. 

Para o investidor que olha para o setor, a leitura precisa ser segmentada. O café é, segundo os especialistas, a única commodity com margem operacional positiva e consistente, sustentada pela valorização do robusta e pela estabilidade dos custos hoje. A pecuária também atravessa um momento melhor. 

PARA FECHAR:

Para os curiosos no assunto: a USP mantém no ar um site do Centro de Estudos Avançados de Economia Aplicada, o CEPEA que traz diariamente os preços das commodities e uma média.

Além de alguns ebooks e conteúdos gratuitos que ficam por lá. Eu, como gosto do tema, estou sempre dando uma zapeada para ver se encontro algo novo ou que renda uma conversa aqui ou nos outros conteúdos que fazemos no Market Makers.

O site é esse aqui: https://cepea.org.br/br

Um abraço, Leopoldo Rosa

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Leopoldo Rosa
Por Leopoldo Rosa

Leopoldo Rosa é COO do Market Makers. Jornalista com MBA em Mercado de Capitais pela UBS/B3 e em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Tem passagens por Globo, CBN, CNN e Abril.

leopoldo.rosalino.ext@mmakers.com.br