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O copo de água suja chamado Brasil
A conversa que tivemos no episódio 351 com o senador do Sergipe, Alessandro Vieira, foi uma das mais importantes para entender não apenas a crise moral que o Brasil, mas por trazer uma analogia que muito bem explica nosso país.
A conversa que tivemos no episódio 351 com o senador do Sergipe, Alessandro Vieira, foi uma das mais importantes para entender não apenas a crise moral que o Brasil, mas por trazer uma analogia que muito bem explica nosso país.
O episódio falou da briga com Gilmar Mendes, falou sobre a “multinacional” PCC e seu pensamento empresarial que faria muito CEO da Faria Lima corar de vergonha… mas a imagem que melhor define o episódio foi um copo.
Um copo meio cheio de água suja.
A imagem foi contada pelo próprio Alessandro, lembrando de quando entrou na polícia (ele foi delegado por boa parte da sua vida profissional, antes de virar senador).
O chefe dele disse mais ou menos assim: você tem um copo com água suja. A única forma de limpar esse copo é continuar jogando água limpa. Não uma vez. Não duas. O tempo todo. Porque, se você parar, a água suja volta a dominar.
E talvez essa seja uma das melhores metáforas para entender o Brasil.
Vivemos em busca do grande purificador mágico, que seria o salvador da pátria: o candidato iluminado, o ministro corajoso, o juiz de toga reluzente, o policial linha-dura, o outsider – ou o “insider” arrependido -, o liberal que vai modernizar tudo, o conservador que vai botar ordem, o progressista que vai humanizar o sistema…
E, no fim, talvez a verdade seja muito mais chata, muito mais difícil e muito menos vendável em campanha eleitoral: o Brasil melhora quando a gente coloca água limpa todo dia.
Não quando alguém aparece com uma mangueira milagrosa dizendo que vai lavar tudo em cinco minutos.
E esse é o grande problema do mundo político. A política não é o lugar onde os puros reinam. É o lugar onde os impuros vencem quando os puros desistem.
Eu sei. Falar de política no Brasil dá preguiça. Dá vontade de fingir que não é com você e voltar a discutir se a bolsa tá barata ou se a inteligência artificial vai acabar com os analistas de research.
Mas, infelizmente, a política não desliga só porque você desligou dela.
E talvez por isso a conversa com Alessandro Vieira tenha sido tão importante. Não pelo trabalho feito no relatório da CPI, mas porque ele trouxe uma coisa que anda rara no debate público brasileiro: A ideia de que o problema não se resolve com catarse.
Precisamos de diagnóstico e método. Criar orçamento, fiscalização e por gente qualificada. Em outras palavras: colocar água limpa o tempo todo no copo.
Por que o método é o que fez o crime organizado prosperar por aqui. Como bem disse Alessandro: não existe crime organizado em nenhum lugar do mundo sem lavagem de dinheiro e sem corrupção.
Parece óbvio. Mas o Brasil, como sempre, tem uma relação bastante criativa com o óbvio.
Enquanto o gênio grita “bandido bom é bandido morto”, o crime organizado lava dinheiro, compra influência, estrutura fundo, infiltra mercado legal, corrompe agentes públicos e transforma o Brasil num hub logístico de droga, fraude, combustível, garimpo, apostas, cigarros, bebidas, defensivos agrícolas e sabe-se lá mais o quê (mais informações, leia a reportagem feita pelo Wall Street Journal sobre o PCC).
O Alessandro trouxe uma provocação incômoda. O “bandido” com o fuzil na favela é a ponta. O crime organizado mesmo está no andar de cima. Lavando dinheiro, comprando influência, enfrentando uma CVM sucateada, um Banco Central sem estrutura suficiente, um COAF sem braço, uma Receita sem pessoal…
É muito mais fácil prometer bala. Mas é muito mais difícil prometer laboratório, inteligência, dados integrados, rastreamento financeiro, sistema prisional decente, cooperação internacional, fortalecimento da CVM e investigação de colarinho branco.
Esse episódio foi um daqueles que todo brasileiro deveria ouvir para entender melhor a profundidade de nossos problemas.
Água limpa não é só eleger gente melhor. Água limpa também é criar regras melhores.
E como bem disse Alessandro: a solução só passa pelo voto (confesso que dá até uma tristeza ouvir isso). Mas de fato, não há fórmula mágica. Temos que escolher melhor, saber cobrar e entender que senador não é figurante de eleição presidencial.
Ao final do episódio Alessandro citou uma música do lendário Chico Science: “Um passo à frente e você já não está no mesmo lugar.”
Essa frase combina perfeitamente com a metáfora do copo. Precisamos dar um passo de cada vez. Um passo na segurança pública, um passo na regulação do mercado, no fortalecimento da CVM, no sistema prisional, na cobrança sobre o Supremo, na profissionalização do combate à lavagem de dinheiro.
O problema é que o Brasil se acostumou tanto com a água suja que muita gente já acha que essa é a cor natural da água.
Precisamos entender que dá pra limpar. Mas não dá para limpar uma vez só.
Tem que colocar água limpa.
Todo dia.
Sem parar.