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A nova onda de RJs e o Brasil sem futuro aparente

Empresas gigantes estão pedindo recuperação judicial, e isso pode ser o “novo normal” do Brasil. Mas o que está por trás dessa onda de RJs?

Leopoldo Rosa

Por Leopoldo Rosa

28 Aug 2026 10h00 - atualizado em 28 Aug 2026 10h58

Americanas, Raízen, Casas Bahia, Agro Galaxy, Marabraz, Braskem. Todas gigantes que desafiam a máxima do “too big to fail” porque, como vimos, estão em RJ ou pediram a recuperação extrajudicial. Nesta terça-feira, o Matheus Soares e eu fizemos um episódio do Market Makers sobre essa onda de RJs no Brasil e a principal pergunta que eu queria ver respondida é: viver exposto a empresas nessa situação é o “novo normal”?

O Daniel Palaia, CIO da Asset One, que esteve com a gente, disse que sim. Que cada vez mais a gente vai presenciar empresas em RJ ou extrajudicial no Brasil e que é preciso colocar isso na conta. E tem razões variadas para isso. Me interessam os pontos em comum.

Sim, porque nos pontos específicos você pode colocar aí que as Casas Bahia têm uma questão com os sócios que atravessa os últimos anos e prejudica o andamento dos negócios. Ou que a Raízen fez aquisições esquisitas que deram muito errado. Fora o auê todo nas Americanas. Então, vamos separar do debate o que é específico.

Se você olhar só o segmento agro, há um estrangulamento de margem perigoso. O preço das commodities baixou muito, enquanto as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio dispararam os preços dos defensivos agrícolas. Ao mesmo tempo, safras inteiras se perderam por questões climáticas no interior do Brasil. Uma tempestade perfeita que levou esse setor, que costuma ser o puxador do PIB brasileiro nos últimos anos, a puxar a lista de RJs também.

Foram 1990 pedidos de RJs de empresas do agro em 2025 – uma alta de 56% em relação ao ano anterior. Daí veja como esse novelo se encrenca: o Daniel Palaia acrescentou um agravante que envolve quem concede o crédito: dado o nível de informalidade de muitas empresas – várias delas familiares – cobrar dívidas é muito mais difícil, tomar um ativo é quase impossível. Mais da metade dos pedidos de recuperação de 2025 eram de produtores rurais pessoa física.

É assim que instituições como o Banco do Brasil, historicamente o mais importante concedente de crédito ao agronegócio, ficam com o traseiro na janela, como dizia minha avó. 

Quando a gente vai pro varejo, há outros desafios comuns a essas empresas. A concorrência com o varejo online quebrou várias delas. A perda de poder de compra das famílias e a alta do desemprego na pandemia também ajudaram a marcar os balanços de uma forma difícil de recuperar – mesmo 6 anos depois do início da crise sanitária. 

Mas daí une-se varejo, agro e companhia num ponto comum estrutural difícil de contrapor: estamos há muitos anos com uma taxa básica de juros proibitiva. Créditos que foram tomados com base no CDI + X com o juros a 2% em 2020 viraram uma avalanche de custo de capital que qualquer caixa, mesmo os mais saudáveis, têm dificuldade de lidar. 

Ao mesmo tempo, há dois fatores que contribuem para a “febre das RJs”: há mudanças na legislação que facilitaram o processo e ampliaram o perfil de quem poderia pedir por esse mecanismo (especialmente no caso dos produtores rurais), mas há também uma falta de perspectiva. Veja, se houvesse no horizonte uma expectativa clara de que estamos caminhando para um ajuste fiscal que levaria a um juro de um dígito, as empresas que estão no limite da RJ talvez topassem segurar o risco por mais alguns meses e não levantaram a bandeira. Mas não há. 

Do boletim Focus aos relatórios mais prestigiosos do mercado, você não vai encontrar um ser humano que consiga apontar num horizonte de 3 anos a perspectiva de uma Selic a 9%. Daí entre sangrar ad eternum ou pedir RJ, em que pese o risco reputacional que isso representa para a empresa, elas acabam preferindo a segunda opção. 

No fim, você pode culpar – e não sem razão – os problemas administrativos, o clima, a ambição de escritórios de advocacia sedentos por uma RJ e até a “facilidade” do processo. Pode culpar até o Elon Musk se quiser. Mas o que tem levado empresas brasileiras a abrirem o bico é a falta de futuro aparente. A falta de uma perspectiva positiva ou mesmo alentadora que volte a fazer da alavancagem um movimento legítimo de investimento no negócio e não num risco de sobrevivência é o que vem desanimando as empresas e fazendo-as ceder. 

Afinal, quem em sã consciência acelera o carro numa estrada com neblina e sem saber o destino?

Um abraço,

Leopoldo Rosa

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Leopoldo Rosa
Por Leopoldo Rosa

Leopoldo Rosa é COO do Market Makers. Jornalista com MBA em Mercado de Capitais pela UBS/B3 e em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Tem passagens por Globo, CBN, CNN e Abril.

leopoldo.rosalino.ext@mmakers.com.br