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A maior lição de Buffett: a loteria do ovário

A principal lição de Warren Buffett: esforço importa, mas as circunstâncias em que nascemos também. Reconhecer isso nos torna mais humildes e gratos.

Thiago Salomão

Por Thiago Salomão

08 Jun 2026 13h57 - atualizado em 08 Jun 2026 01h59

Ficamos mais de 3 horas conversando sobre Warren Buffett no Market Makers.

E não deu tempo de falar sobre tudo que gostaríamos (sim, teremos Parte II, como já anunciei ao longo da conversa).

Cobrimos os primeiros negócios dele ainda criança, a parceria com Charlie Munger, a filosofia de investimento que ele foi construindo ao longo de décadas, os erros que ele mesmo admite que cometeu, os acertos que definiram a Berkshire Hathaway… 

Mas aqui nesta newsletter eu vou falar sobre a lição que mais me marcou. Uma passagem que você encontra algumas vezes no livro autobiográfico dele, “A Bola de Neve”.

O trecho abaixo eu extraí do último capítulo do livro, o qual eu recomendo fortemente a leitura – ou a audição, já que ele está disponível na Audible.

“Tive muita sorte de ter nascido em 1930 nos EUA. Tirei a sorte grande na loteira no dia em que nasci. Tive pais maravilhosos, uma boa educação e favorecido de uma maneira que rendeu benefícios desproporcionais em nossa sociedade em particular. Se eu tivesse nascido muito tempo atrás ou em outro país, minhas habilidades particulares não teriam rendido tanto, mas num sistema de mercado onde estar preparado para alocar capital é uma coisa importante, é possível receber benefícios como em nenhum outro lugar”

Warren Buffett chama isso de “ovarian lottery” — ou loteria do ovário.

A ideia é desconcertante na sua simplicidade: não escolhemos nada das condições mais determinantes de nossas vidas. Não escolhemos o país, o século, a família, o gênero, a cor da pele… não escolhemos se nasceríamos numa cidade com escola boa ou numa favela sem saneamento.

Você chega neste mundo e as cartas já estavam na mesa.

O Buffett poderia ter nascido em 1930 na União Soviética, onde seu talento pra alocar capital não valeria nada. Ou poderia ter nascido nos EUA, só que mulher, numa época em que mulheres não eram admitidas nas mesas de negociação (o próprio Buffett reconhece que sua irmã não teve as mesmas oportunidades que ele).

Ou seja: Buffett foi e é um gênio, mas ter nascido homem, um ano depois da grande crise de 1929 e no país mais favorável para quem tem habilidade para alocar capital, deu uma ajuda e tanto para seu sucesso.

Tão simples quanto isso.

Eu fiquei pensando nisso e lembrei do Malcolm Gladwell e um de meus livros favoritos: Outliers – os foras de série.

Em Outliers, ele desmonta, de forma elegantemente brutal, o velho mito que adoramos acreditar: o de que o sucesso é mérito puro, que os grandes vencedores venceram porque eram melhores, mais esforçados, mais determinados.

O Gladwell mostra, com dados e histórias, que a época em que você nasce importa de um jeito que beira o absurdo. 

Veja esse exemplo do livro:

Os maiores magnatas da tecnologia americana — Gates, Jobs, Paul Allen — nasceram todos entre 1953 e 1956. Não é coincidência. É que quem nasceu nessa janela tinha exatamente a idade certa, no final dos anos 70, pra ser jovem o suficiente pra abraçar os computadores pessoais antes de qualquer pessoa ter estabelecido o “jeito certo” de fazer as coisas.

Antes de 1953, você tinha passado a vida aprendendo o jeito antigo, resistiria às mudanças. Depois de 1956: você chegaria tarde demais, as posições já estariam ocupadas.

Aquela janela de três anos. Quem nasceu nela ganhou na loteria sem saber.

Outro exemplo, que vem logo no começo do livro: 

Os melhores jogadores de hóquei no Canadá têm uma característica estranha em comum: a maioria nasceu nos primeiros meses do ano. Janeiro, fevereiro, março. O motivo é banal e cruel ao mesmo tempo: o corte etário das categorias jovens é em janeiro. Então quem nasce em janeiro tem quase um ano a mais de desenvolvimento físico que quem nasce em dezembro. Nos primeiros anos, esse gap é enorme. Os de janeiro são maiores, mais fortes, chamam atenção dos técnicos, recebem mais treino, mais atenção, mais desenvolvimento. E vira uma profecia auto-realizável que dura pra sempre.

O cara que nasceu em dezembro e poderia ter sido o melhor jogador de hóquei do mundo nunca vai saber que poderia ter sido.

“Então não adianta fazer nada, porque tudo é sorte”, poderia pensar um dos 3 leitores deste texto. 

Obviamente que só isso não explica a história de Warren Buffett. Ele mesmo estudou como um louco desde criança, trabalhou desde cedo, investiu desde cedo, leu mais do que qualquer pessoa que eu conheço… isso faz toda diferença. 

O próprio Gladwell dedica um capítulo inteiro do seu livro às famosas 10.000 horas — a ideia de que maestria exige prática deliberada e consistente. Dos Beatles ao Bill Gates, a prática foi quem ajudou a construir o sucesso.

Mas o recado que fica aqui é: o esforço é necessário. Mas não é suficiente. E nunca foi.

Certamente existe uma versão do Warren Buffett que nasceu em outro país, em outro século, com outro gênero… Que trabalhou igual, estudou igual, foi igual disciplinado… Só que ninguém jamais conheceu.

Se essa ideia é nova pra você que está lendo, convido-o a refletir sobre sua vida: o que te trouxe até aqui? Quanto disso foi mérito pessoal e quanto disso pode ter sido por, talvez, ter nascido em determinada cidade, determinada família, determinado ano…

Veja bem, não é apenas “nascer no lugar certo”: às vezes, nascer nas condições erradas num primeiro ponto de vista é o que pode ter garantido o sucesso que veio posteriormente.

A questão é: quando você entende que parte do que você conquistou veio de condições que você não controlou, fica mais difícil ser arrogante. O Buffett — o homem mais rico do mundo por décadas — fala da sua própria riqueza com uma humildade que constrange muita gente que tem um milionésimo do que ele tem.

Da mesma forma, entender que as circunstâncias importam muito te faz pensar duas vezes sobre uma pessoa que está pra baixo “é preguiçosa” ou “é por falta de esforço”. Pode ser. Mas pode também ser que a loteria do ovário não foi favorável. E a gente raramente sabe qual das duas.

Entender esse conceito te faz também entender por que Buffett defende imposto de herança ou tributação sobre os mais ricos. Em suas próprias palavras, ele ganhou na loteria, mas a loteria tem dívidas.

Te convido a ouvir o episódio com carinho. E também a fazer esta reflexão: como você teria se saído se tivesse nascido em condições diferentes?

Que esse exercício te ajude a olhar para si com um pouco mais de humildade e gratidão. E, obviamente, também saber onde você teve méritos próprios.

Assistir o episódio

Um abraço, Thiago Salomão

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Thiago Salomão
Por Thiago Salomão

Fundador do Market Makers, analista de investimentos CNPI-P, MBA em Mercados Financeiros na Fipecafi e na UBS/B3. Antes de fundar o MMakers, foi editor-chefe do InfoMoney, analista de ações na Rico Investimentos, co-fundou o podcast Stock Pickers e foi sócio da XP de 2015 a 2021

Thiago.Salomao@btgpactual.com