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A NOSSA CONVERSA COM A CELESC

A nova revisão tarifária da Celesc trouxe uma surpresa positiva para a companhia. E agora começa a discussão sobre como aproveitar esse novo espaço.

Matheus Soares

Por Matheus Soares

24 Sep 2026 10h00 - atualizado em 28 Sep 2026 04h34

Na semana retrasada, conversei com o time da Celesc para entender melhor o que mudou depois da revisão tarifária da companhia.

Para quem nunca estudou uma distribuidora de energia, a lógica do negócio é relativamente simples: a empresa investe bilhões em postes, redes, subestações e outros equipamentos necessários para levar energia até nossas casas. A cada cinco anos, a ANEEL olha para tudo aquilo que foi investido e redefine quanto a distribuidora poderá cobrar dos consumidores para remunerar esses ativos e pagar suas despesas.

É quase como se, de cinco em cinco anos, o regulador fizesse uma grande auditoria no negócio e dissesse:

“Considerando tudo o que vocês investiram, estes serão os recursos que vocês terão para operar e remunerar esse capital nos próximos anos.”

A Celesc acabou de passar por esse processo. E a principal mensagem da nossa conversa foi que o resultado veio melhor do que a própria companhia esperava.

A Celesc entra neste novo ciclo regulatório com uma receita permitida significativamente maior, sem esperar um aumento proporcional de suas despesas. Mas talvez o ponto mais interessante da conversa tenha sido outro.

Distribuidoras recebem na tarifa uma compensação pelas perdas de energia que naturalmente acontecem entre a compra da eletricidade e sua chegada ao consumidor. Se a empresa consegue operar com perdas menores do que aquelas reconhecidas pelo regulador, fica com a diferença.

No ano passado, esse ganho foi próximo de R$ 180 milhões. Depois da decisão da ANEEL, a companhia acredita que poderá preservar boa parte desse ganho durante o novo ciclo, começando com algo próximo de R$ 200 milhões no primeiro ano.

A conversa também trouxe um bom exemplo de como pequenos detalhes regulatórios podem representar muito dinheiro. Pelas regras tradicionais, a ANEEL reconheceria perdas técnicas equivalentes a 5,10% da energia. A Celesc argumentou que as características da geração distribuída em algumas regiões de Santa Catarina justificavam um número maior. O regulador aceitou parte do argumento e reconheceu 5,30%. Parece irrelevante, mas essa diferença incide sobre uma conta de compra de energia de aproximadamente R$ 3 bilhões.

A segunda coisa que chamou minha atenção foi o que a companhia pretende fazer com esse resultado.

 
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Depois da revisão tarifária de 2021, que já havia sido boa, a Celesc ganhou confiança para aumentar seus investimentos. A revisão de 2026 veio ainda melhor. E a reação deve ser a mesma: investir mais.

Hoje, a companhia enxerga espaço para investir algo próximo de R$ 1,4 bilhão a R$ 1,5 bilhão por ano nos próximos anos. Grande parte desse dinheiro irá para expansão da rede de distribuição, acompanhando o crescimento de Santa Catarina.

E aqui talvez esteja o insight mais interessante da conversa.

Normalmente, quando analisamos uma empresa, uma das perguntas mais difíceis é: onde ela conseguirá reinvestir o dinheiro que ganha?

Na Celesc, aparentemente, o problema é o contrário.

Existe demanda por investimentos, existe uma remuneração regulatória atraente e existe necessidade de expansão da rede. O limite começa a ser financeiro: quanto a companhia consegue investir sem elevar demais o endividamento?

Hoje, existe um covenant que limita a dívida líquida consolidada a 3 vezes o EBITDA. Ao mesmo tempo, a Celesc historicamente distribui uma parcela relevante dos seus lucros em dividendos. Portanto, se quiser acelerar ainda mais os investimentos, haverá uma escolha a fazer entre investir, distribuir dividendos e se endividar.

Foi justamente essa frase que ficou na minha cabeça depois da conversa.

A revisão tarifária resolveu uma parte importante da equação para os próximos cinco anos: a Celesc sabe melhor quanto poderá ganhar sobre os investimentos que já realizou.

Agora começa uma segunda etapa, talvez ainda mais interessante: decidir quanto do dinheiro que gera deve voltar para o próprio negócio.

Para quem gosta de empresas capazes de reinvestir capital por muitos anos, é uma discussão que vale acompanhar de perto.

Um abraço,

Matheus Soares

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Matheus Soares
Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br