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O que aprendi atravessando uma depressão
Vinicius Mastrorosa participou do episódio 366 do Market Makers e deu uma verdadeira aula sobre o mercado imobiliário brasileiro.
Sério, fazia muito tempo que um episódio não tinha tamanha repercussão positiva nos comentários.
Mas uma parte muito tocante do papo foi na pergunta da maior gentileza feita na tua vida. Vinicius contou sobre sua crise de depressão que durou dois anos e como ele venceu isso.
A pedido do Market Makers, Vinicius topou compartilhar essa história neste espaço. Que esse relato sirva de ajuda para quem está lendo ou que este texto chegue a pessoas que precisam ler sobre isso.
Obrigado, Vinicius, por compartilhar algo tão pessoal conosco. E mais uma vez, parabéns pelo episódio espetacular.
Vinicius Mastrorosa:
Entre 2017 e 2019 vivi uma depressão profunda. Escrevo isso agora com a naturalidade de quem já está do outro lado, mas durante aqueles dois anos essa frase não existia para mim — eu não tinha visão, não tinha narrativa, não tinha “outro lado”. Tinha apenas o dia, e o dia era pesado.
Decidi escrever sobre isso a pedido de uma pessoa que me atentou que minha experiência poderia ajudar muita gente. O pedido foi para um artigo sobre “como venci a depressão”, e foi quando percebi que eu não saberia escrever esse artigo, porque não acredito que se vence a depressão como se vence um adversário. Acredito que se atravessa, como uma tempestade muito forte em alto mar, e que a travessia de cada um é única.
Este texto, portanto, não é um manual, é um relato do que me feriu, do que me sustentou e do que me ajudou a atravessar. Acredito que possa servir a quem está deprimido, a quem ama alguém deprimido, ou a quem simplesmente quer entender melhor uma experiência que ainda é muito mal compreendida — especialmente em ambientes de alta performance como o mundo corporativo, onde ela costuma ser silenciada.
O reconhecimento
Eu não soube imediatamente que era depressão. Achei, por muito tempo, que era uma fase ruim, uma resposta proporcional a um problema que eu estava enfrentando e que ninguém conseguia diagnosticar com clareza. A confusão é comum, porque a depressão raramente se anuncia: ela se instala, ocupa espaço, e em algum momento você percebe que já não consegue lembrar quando foi a última vez que se sentiu de outro jeito.
Para mim, ela se manifestou como paralisia, na vontade de passar o dia inteiro na cama ou no sofá chorando, enquanto as tarefas mais simples viravam montanhas. E o reconhecimento veio no pior lugar possível, quando cogitei, com seriedade, acabar com a minha vida. Foi ali que entendi que aquilo não era tristeza nem fase, era doença.
A solidão de não ser visto
A parte da depressão sobre a qual menos se fala, e que talvez tenha sido a mais dolorosa para mim, é ficar invisível. Há uma dor muito específica em adoecer de algo que ninguém vê, porque você começa a duvidar de si mesmo, a achar que está exagerando, a pensar que está sendo fraco, a se perguntar se o problema não seria, no fundo, apenas o seu jeito de encarar as coisas. Essa erosão da própria percepção é uma das partes mais cruéis do processo, e ela não é causada pela depressão em si — é causada pela maneira como as pessoas ao redor reagem a ela.
Se eu pudesse dar um único recado a quem convive com alguém deprimido, seria este: muito cuidado com as palavras. O que mais me feriu foram os discursos vazios de autoajuda, com frases prontas sobre força, foco, gratidão e mentalidade. Quem está deprimido não está com a mentalidade errada, está doente, e tratar depressão com frases de motivação é como tratar pneumonia com pensamento positivo. Feriram-me também as pessoas que minimizavam o que eu sentia com frases como “você não tem depressão”, “todo mundo passa por isso” ou “é só uma fase”, porque elas não consolam, apenas isolam ainda mais, comunicando à pessoa que ela está sozinha não só na dor, mas na percepção da própria dor. E, talvez mais do que tudo, as pessoas que fingiam escutar, mas estavam de fato esperando o turno de falar (muito comum atualmente), mudar de assunto, ou apenas cumprindo um protocolo social.
O que me sustentou
Minha esposa, na época minha namorada, foi a única pessoa que me sustentou durante todo o processo. Ela escutava de verdade, sem pressa, sem ensaiar resposta, sem tentar soluções imediatas, apenas presente. E tinha uma convicção genuína, não performática, de que eu iria melhorar, de modo que num momento em que eu não conseguia acreditar em nada sobre mim, ela acreditava por mim — não como frase de apoio nem como otimismo forçado, mas como uma segurança real que eu sentia nela e que pude tomar emprestada quando a minha já tinha acabado. Perceber que alguém enxerga você, entende ou tenta verdadeiramente entender sua dor, e tem convicção na sua melhora é o maior presente que um deprimido pode receber.
Aprendi com ela que apoiar alguém em depressão não é ter as palavras certas, é ter presença e ter fé na recuperação da pessoa, mesmo quando ela própria não tem mais.
O que me ajudou a atravessar
O que vou contar a seguir foi o que me ajudou a atravessar, mas não é prescrição, cada pessoa precisa encontrar seus próprios amparos, e para isso o autoconhecimento é fundamental, o que explica meu primeiro passo.
Comecei análise com um psiquiatra, e foi importante ter um espaço técnico e profissional onde minha experiência era levada a sério e onde eu podia falar sem precisar gerenciar a reação do outro e onde pude investir tempo para olhar para dentro.
Entrei também na rotina do esporte, e isso me ajudou muito mais do que eu esperava. Era algo que eu tinha para fazer todos os dias, e as pequenas evoluções são como pílulas de motivação diária, a produção de algum bem-estar físico que se infiltrava devagar no humor.
No entanto, certamente o que mais me ajudou foi a busca pelo conhecimento. Mergulhei obsessivamente no estudo de como o cérebro funciona, lendo sobre psicologia, neurociência, neuroplasticidade, o impacto do sono, da alimentação e dos hábitos. Esse mergulho me deu algo muito precioso, que era a sensação de que havia caminhos possíveis. A busca pelo entendimento do que estava acontecendo comigo foi me devolvendo, aos poucos, uma sensação de agência, num momento em que tudo parecia estar fora do meu controle.
A verdade sobre a melhora
Minha recuperação teve uma causa concreta que precisou ser encontrada e tratada, e não foi só disciplina, mentalidade, virada de chave. Digo isso por uma razão importante: a depressão nem sempre é só psicológica, pode haver fatores físicos, hormonais, neurológicos ou médicos não diagnosticados por trás dela. Em ambientes de alta performance, onde se valoriza tanto a capacidade de superar pela força de vontade, há um risco real de que as pessoas insistam em se cobrar disciplina quando deveriam estar insistindo em investigar a causa.
Se há uma mensagem prática neste texto, é esta: investigue a fundo, insista, porque a causa importa e o tratamento certo é essencial.
O que ficou
Hoje, anos depois, estou bem, mas não saí do outro lado como uma pessoa vencedora. Saí como alguém que atravessou um período muito difícil e que carrega isso consigo, com mais empatia, com mais paciência para a dor dos outros e com uma desconfiança sadia de qualquer discurso que prometa soluções rápidas para sofrimentos profundos.
Se você está deprimido agora lendo isto, não tenho frase de efeito para te oferecer, tenho apenas o reconhecimento de que sua dor é real, mesmo que ninguém ao seu redor entenda, de que você não está exagerando, e de que buscar ajuda — profissional, médica, humana — é legítimo e necessário. A sua travessia será sua, mas não precisa ser solitária. E o mais importante, ela tem um fim.
Se você ama alguém deprimido, escute de verdade, esteja presente e acredite na recuperação dessa pessoa mesmo quando ela já desacredita. Posso afirmar que no meu caso, foi isso que me deu uma segunda chance de viver.