Notícia

6min leitura

icon-book

Nossa tese de investimentos em Mills (MILS3)

Há alguns anos, meu amigo Christian Keleti, fundador e gestor da Alpha Key, vem repetindo uma frase que cada vez mais soa como profecia: vai faltar papel na bolsa brasileira.

Matheus Soares

Por Matheus Soares

27 May 2026 10h19 - atualizado em 27 May 2026 10h48

Aos poucos, algumas das melhores empresas listadas vão sendo compradas, incorporadas, fechadas ou retiradas do mercado. Ontem foi a vez da Mills anunciar que seus acionistas controladores se comprometeram a vender sua participação para a francesa Loxam, maior empresa de locação de equipamentos da Europa. Como a Mills está listada no Novo Mercado, a operação deverá ser seguida por uma OPA aos minoritários nas mesmas condições. Em outras palavras, depois de anos criando valor na bolsa, a Mills provavelmente será mais uma boa empresa brasileira a deixar a B3.

A Loxam pagará R$ 16,00 por ação aos controladores, preço que representava um prêmio de 22% sobre o fechamento anterior ao anúncio. A operação envolve a compra de 50,3% do capital da companhia, será corrigida por 70% do CDI a partir do 31º dia até o fechamento e, uma vez concluída a transferência de controle, deverá ser seguida por uma oferta pública aos minoritários pelo mesmo preço, atualizado pela Selic até a liquidação da OPA. Como acionistas minoritários de Mills através do Market Makers FIA isso significa que venderemos nossa posição para os franceses.

Confesso que o sentimento é misto. A Mills tem sido um bom investimento para o fundo, mas era uma daquelas empresas que encarávamos como “compounder” e que gostaríamos de carregar por muito mais tempo. Enxergávamos nela uma combinação rara entre boa execução, setor ainda subpenetrado, oportunidade de consolidação e uma cultura de gestão que vinha melhorando ano após ano.

Minha história com a Mills começou antes do Market Makers FIA. Acompanho a companhia desde 2019, quando ela havia acabado de comprar a Solaris. Na época, eu ainda cobria a empresa como analista da Rico Corretora. Mais tarde, já no sell-side da XP Inc, a Mills foi a segunda empresa da minha cobertura – depois de ter iniciado a cobertura de Priner, hoje, a maior posição do fundo – e pude observar de perto o início de uma das melhores histórias de criação de valor que vi na bolsa brasileira nos últimos anos.

A Mills saía de um período difícil, carregava ainda cicatrizes do ciclo anterior da construção pesada e havia se reposicionado em um mercado muito mais interessante: a locação de plataformas elevatórias, máquinas e equipamentos para diferentes setores da economia.

Em uma CompoundLetter antiga, eu chamei a Mills de “A Localiza das plataformas elevatórias”. A analogia nunca foi perfeita, mas ajudava a explicar a essência do negócio. A Mills compra equipamentos, aluga esses ativos para uma base ampla de clientes, controla a utilização, faz a manutenção, coloca preço e, ao final do ciclo, decide se vale a pena manter o ativo gerando receita ou revendê-lo para reinvestir o capital em uma nova máquina. No papel, pode até parecer simples, mas na prática, é um negócio que exige escala, capilaridade, execução operacional e muita disciplina de alocação de capital.

De 2019 para cá, a transformação foi profunda e, para mim, com marcos importantes. O primeiro foi a fusão com a Solaris, em 2019. Até então, a Solaris era a maior concorrente da Mills em plataformas elevatórias, e a combinação das duas companhias mudou completamente a escala da operação. A partir dali a Mills passava a ser a principal plataforma de consolidação de um mercado ainda fragmentado no Brasil.

Depois veio a compra da Triengel, em 2023, que ampliou a atuação da companhia em equipamentos pesados e ajudou a Mills a dar um passo importante para além das plataformas elevatórias. Em 2024, a aquisição da JM Empilhadeiras reforçou a presença em intralogística, adicionando uma vertical com características muito interessantes: contratos mais recorrentes, base de clientes industriais e uma demanda menos dependente do ciclo tradicional da construção. Já em 2025, com a compra da Next Rental, a Mills ampliou sua participação em linha amarela, fortalecendo a tese de que poderia se tornar uma plataforma muito mais ampla de locação de equipamentos no Brasil.

Essa transformação via M&As alterou o perfil da receita da companhia. A Mills que conhecemos em 2019 era uma empresa muito mais concentrada em plataformas elevatórias e ainda carregava parte relevante do estigma do ciclo anterior. A Mills que chegou em 2026 já era uma outra empresa: mais diversificada, mais previsível, com maior exposição a diferentes setores da economia e com um mercado endereçável muito maior. As aquisições também ampliaram a avenida de reinvestimento da companhia, reduziram a dependência de uma única linha de negócio e aumentaram a relevância estratégica da Mills dentro do setor de locação de equipamentos.

Essa agenda de criação de valor foi liderada pelo Sergio Kariya, CEO da empresa. Já como sócios da Mills através do Market Makers FIA, tivemos a oportunidade de entrevistá-lo no Market Makers justamente para compartilhar com nossos cotistas e ouvintes a transformação que estava em curso.

Durante boa parte do nosso investimento, o mercado olhou para a companhia com desconfiança, principalmente pelo histórico da empresa. Em 2016, a empresa esteve a beira da insolvência. Mas quem se dispôs a estudar a empresa sem o preconceito do passado e com calma encontrou uma tese diferente: um negócio com avenida relevante de crescimento, balanço saudável, boa geração de caixa, oportunidades de reinvestimento e um belíssimo time de gestão – justamente os atributos empresariais que buscamos carregar na carteira.

A venda para a Loxam, de certa forma, corrobora essa leitura. Um player global, com décadas de experiência no setor e presença em mais de 28 países, enxergou na Mills a possibilidade de aumentar sua exposição a um mercado com muito potencial de crescimento. Curioso como um investidor estratégico como a Loxam está disposto a desembolsar R$ 3,8 bilhões à beira de uma eleição presidencial. Muitas vezes, nós brasileiros, gastamos muito tempo tentando entender quem será o presidente, enquanto, no final do dia, o importante era tornar-se sócio de uma empresa que vinha crescendo gerando valor apesar dos governos.

A saída da Mills da bolsa não é um evento isolado. Em um mercado em que muitas empresas boas negociaram durante anos a múltiplos deprimidos, em que a liquidez se concentrou em poucas ações grandes e em que o investidor local frequentemente abandonou as small caps, é natural que compradores estratégicos e financeiros com horizonte mais longo apareçam. No longo prazo, o valor de uma empresa converge com os fundamentos do negócio.

Para o Market Makers FIA, o sentimento é de missão cumprida: estudamos a empresa, entendemos a tese, confiamos na gestão, tivemos paciência e fomos remunerados por isso. A lição incômoda é que, em um mercado tão pequeno e tão descontado como o brasileiro, boas empresas podem simplesmente desaparecer da prateleira antes que todo o valor de longo prazo seja capturado por nós, acionistas.

Se a profecia do Keleti continuar se concretizando, talvez o problema do investidor paciente não seja encontrar boas empresas na bolsa. Talvez seja conseguir mantê-las listadas por tempo suficiente.

Compartilhe

Matheus Soares
Por Matheus Soares

Fundador do Market Makers, analista responsável pela Carteira Market Makers de Ações. Antes de fundar o MMakers, foi analista responsável pela cobertura de Small Caps na XP Inc e analista fundamentalista da Rico Investimentos. Certificado no curso de Value Investing da Columbia Business School.

matheus.soares@mmakers.com.br