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O perigo de generalizarmos o mundo

Generalizar é ignorar os detalhes que revelam a complexidade da realidade. Na política e nos investimentos, fugir das caixas fáceis exige olhar além do plano geral.

Leopoldo Rosa

Por Leopoldo Rosa

14 Aug 2026 10h15 - atualizado em 14 Aug 2026 10h15

Olá, olá, tudo bem?

No cinema, há dois tipos de tomada (posição de câmera) muito comuns: a geral e o plano detalhe. A geral é aquela que pode ser vista de cima, por exemplo. O plano detalhe é um ultrazoom dado num ponto específico, que pode ser até uma micro expressão facial.

Agora, te convido a um exercício imaginativo (juro que tenho um objetivo com isso): no plano geral, vemos uma floresta muito arborizada, a câmera num drone passeia por ela, rastreando a copa das árvores. É uma imagem de paz e tranquilidade na natureza. Zoom In. Plano detalhe. A câmera desce e se embrenha no meio das árvores, vemos uma onça com um filhote de veado na boca, rasgando o animal ao meio enquanto outros veados a cercam, prontos para o contra-ataque. A floresta, na verdade, está em conflito, não em paz.

Essa diferença entre o que mostra o plano geral e o detalhe é exatamente o que separa uma visão generalista de uma visão detalhada da vida. A generalização surge o tempo todo no nosso discurso: todos os evangélicos são conservadores. Todos os nordestinos votam no Lula. Todos os políticos são corruptos. Todo o mercado é de direita. Todos, todos, todos.

Na semana passada, neste espaço, falei do perigo de nadarmos no raso. E externei com você minha preocupação sobre como temos simplificado assuntos complexos para caber na lógica das redes sociais.

Hoje quero abordar outro perigo que me assusta, que é o de generalizarmos o mundo. Essa pasteurização do pensar está em parte conectada também à simplificação extrema. Eu generalizo para poder colocar as pessoas em caixas mais simples: essas à direita, aquelas à esquerda. Dou a visão do plano geral para não precisar aprofundar a câmera, dar o zoom – essa tomada dá muito mais trabalho de fazer. 

Na eleição de 2022 isso aconteceu de maneira escancarada. O voto evangélico era dado como certo em Bolsonaro. Tanto quanto o voto do nordeste era certeiro em Lula e seus apoiados. Pernambuco, que elegeu Lula, elegeu também Raquel Lyra, em oposição à candidatura apoiada pelo presidente. E se todos os evangélicos, com sua proporção crescente no país, tivessem votado em Bolsonaro, talvez ele tivesse vencido a eleição.

A visão da floresta em plano aberto era bem diferente do plano detalhe.

Na semana passada, a gente disparou um e-mail por aqui falando de bolsa brasileira. Recebi algumas respostas dizendo que “bolsa brasileira é uma m*”, “bolsa brasileira só tem lixo”. Mas há ações que estão explodindo e o Ibovespa, embora morno agora, viu números que não via há tempos ao longo deste ano. 

Essa generalização acontece também nos pune quando os veículos de comunicação dizem que “o mercado quer isso” ou “o mercado reagiu mal a aquilo”. Que mercado? Quem do mercado? 

Para quem gosta de finanças comportamentais e o estudo de vieses cognitivos, há alguns que cabem aqui: a estereotipagem, que é a expectativa de que o membro de um certo grupo tenha certas características sem considerar as informações sobre o indivíduo, há ainda a chamada “heurística da disponibilidade”, uma tendência de estimar a frequência de um evento com base em quão fácil é lembrar de um exemplo e outro que se aplica muito à política que é a falácia da taxa base, ou seja, ignorar dados estatísticos disponíveis em favor de casos individuais marcantes.

Como investidores, gestores, empresários, nossa busca deve ser por produzir conhecimento constantemente. É assim que investimos, gerimos e empreendemos mais e melhor. A generalização, no entanto, une duas características inaceitáveis para esse sucesso: a preguiça e a burrice. 

Um abraço,
Leopoldo Rosa

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Leopoldo Rosa
Por Leopoldo Rosa

Leopoldo Rosa é COO do Market Makers. Jornalista com MBA em Mercado de Capitais pela UBS/B3 e em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Tem passagens por Globo, CBN, CNN e Abril.

leopoldo.rosalino.ext@mmakers.com.br