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Jakurski: o maior trader da história do Brasil
Como André Jakurski transformou crises em oportunidades e construiu uma das maiores histórias do mercado financeiro.
Em dezembro de 1983, quatro caras se juntaram pra fundar uma distribuidora de valores no Rio de Janeiro. O nome saiu das iniciais de três deles: Paulo (Guedes), André (Jakurski) e Cezar (Luiz Cezar Fernandes). Pactual.
O Brasil tinha quebrado no ano anterior. Moratória, FMI, dívida externa renegociada na unha. O tipo de cenário em que pessoa sensata guarda o dinheiro embaixo do colchão.
Foi ali que o André começou a ficar rico.
Essa é a parte que todos os 3 leitores desta newsletter precisam entender antes de qualquer coisa: o Jakurski não enriqueceu apesar do caos brasileiro. Ele enriqueceu por causa dele.
Essa e várias outras histórias foram contadas pelo próprio Jakurski pra mim em uma conversa deliciosa de quase duas horas que fizemos na sede da JGP, no Rio de Janeiro.
Você descobrirá como o engenheiro que não queria ser engenheiro foi parar “por sorte” em Harvard, virou executivo de banco, criou uma distribuidora de valores antes de, finalmente, criar a JGP e tornar-se a maior referência em “gestão de risco” e trading da história do Brasil.
Um resumo sobre a história de Jakurski:
André Roberto Jakurski, carioca, nascido em 1948, filho de imigrantes poloneses que chegaram ao Brasil zerados — duas famílias que eram abastadas na Polônia e perderam tudo. O pai, engenheiro mecânico, foi contratado no dia em que pisou aqui.
O André foi fazer engenharia mecânica na PUC-Rio por… desistência. “Não queria ser médico, não queria ser advogado, não queria ser arquiteto, não existia a profissão de economista, então vou fazer a mesma coisa que meu pai.” Descobriu que odiava a faculdade mas teve a sorte do pai sugerir que ele fizesse um MBA fora.
Ele se inscreveu em duas universidades — Harvard e Stanford. Passou nas duas. A decisão entre elas foi a coisa mais cartesiana do mundo: Harvard é mais frio, Stanford é mais quente, mas a passagem pro Rio até Boston era mais barata que pra Califórnia. Foi pra Harvard.
Voltou ao Brasil, passou dez anos no Unibanco (nove como diretor executivo), fez de tudo — crédito, leasing, banco de investimento, banco comercial — menos a área de investimentos. Quando ofereceram a promoção que exigia mudança pra São Paulo, ele recusou. Carioca da gema não larga a praia. Foi o fim da carreira no banco e o começo de tudo.
“Bastava saber fazer conta pra ganhar dinheiro”
Aqui mora a primeira grande lição do Jakurski, e é quase ofensiva de tão simples.
Quando o Pactual virou mesa de operações em 1984, o Brasil tinha acabado de sair do fundo do poço. Ações depreciadas, ninguém querendo. E o André descobriu algo que mudou a vida dele: o mercado era cru. “A imensa maioria dos analistas e investidores não tinha as noções básicas. Mal sabia fazer conta, quanto mais entender os fundamentos das empresas.” A vantagem comparativa dele não era genialidade. Era saber dividir e multiplicar num lugar onde quase ninguém sabia.
Resultado: comprou Vale e uma penca de empresas privadas cujo preço multiplicou por 30 entre 1984 e o Plano Cruzado de 1986. A estratégia era pular de ação em ação — subiu demais, vende, compra a próxima que ainda tá barata. Em português de gente normal: ele catava dinheiro no chão porque era o único na sala enxergando que tinha dinheiro no chão.
Com o lucro, o Pactual comprou a carta-patente e virou banco. Skin in the game desde o primeiro dia: dos 600 mil dólares de capital inicial, o André entrou com 200 mil — sendo 100 mil emprestados pelo próprio Luiz Cezar. Ele botou os mil… quer dizer, os 100 mil dólares que tinha no mundo. Era todo o dinheiro dele.
A tacada que mudou de patamar: Telebras
Se você só puder guardar uma história do André, guarde essa.
Vira de 1991. A bolsa brasileira tinha despencado 70% em dólar por causa do Plano Collor — confisco de poupança, liquidez sugada do mercado. Tudo parecia perdido. E foi exatamente aí que o André fez a continha que ninguém mais estava fazendo.
Editaram leis permitindo o investimento estrangeiro na bolsa. Raciocínio cartesiano dele: “Se abrir pra estrangeiro, eles só vão entrar, não vão sair — porque pra sair tem que entrar primeiro.” Vai ter fluxo. E os ativos estavam de graça por causa do Collor. Some a isso o boato de que o Merrill Lynch ia lançar ADRs da Telebras em Nova York, o que ia puxar a demanda. A Telebras — a estatal de telefonia inteira — negociava a 1,5 vez o lucro. O índice preço/lucro dela chegou a 0,5x. Pra você ter dimensão: o Ibovespa hoje roda perto de duas casas decimais acima disso.
A relação risco-retorno estava obscenamente distorcida a favor de quem comprasse.
Então o André foi pra jugular. Aplicou mais de 100% do patrimônio do banco em Telebras — ações e opções — e recheou as carteiras dos clientes com o mesmo papel. Comprou perto de 9,5% da Telebras por 40 milhões de dólares. A ação saiu de 2 e foi a 30 e poucos dólares. Multiplicou por 16.
O rendimento médio das carteiras dos clientes naquele ano: 540% em dólar. O patrimônio do banco cresceu mais ainda, porque o risco nas opções era maior. Foi aí que o Pactual deixou de ser pequeno.
“Quando o negócio está barato, eu vou pra matar”, ele resume. E completa com a regra que vale ouro: você vê uma oportunidade dessas três, quatro, cinco vezes na vida inteira. Quando aparece, não dá pra comprar 1% e ficar feliz. Tem que ser grande. Senão é uma operação como outra qualquer.
A frase dele que eu mais gosto sobre isso: “Tá sempre cheio de oportunidades. É que você não vê.” O elefante passa voando na sua frente e você não enxerga.
A saída do Pactual e o nascimento da JGPEm 1998, André vendeu toda a participação no Pactual e fundou a JGP com sócios que saíram junto com ele – dentre eles, Paulo Guedes.
Na JGP, a filosofia mudou de propósito: correr menos risco. O dinheiro dos sócios fica junto com o dos clientes, e o objetivo passou a ser proteger patrimônio e entregar retorno seguro. “Não queríamos mais fazer aquelas operações arriscadas da época do Pactual — e, além disso, como o mercado se sofisticou, as oportunidades óbvias desapareceram.”
A filosofia, destilada
Se eu tivesse que resumir o André Jakurski numa única frase, seria essa, que ele repete de formas diferentes em todas as entrevistas:
“Pra ganhar dinheiro você não precisa saber o que vai acontecer no futuro. Ninguém sabe. Você precisa de boa gestão de dinheiro: tá ganhando, deixa o lucro correr; tá perdendo, corta logo o prejuízo.”
Ele se compara a um maratonista que se perdoa rápido. Cita o Djokovic e o Guardiola: o craque é o que erra o gol e volta como se nada tivesse acontecido. No mercado, “o maior inimigo do trader é ele mesmo”. Tudo que ficou pra trás, esquece. Cabeça limpa pra frente.
“Fuja dos riscos que podem dilapidar seu patrimônio.”
Reforço o convite. Clique aqui e assista ao episódio 380 do Market Makers com André Jakurski.
Forte abraço,
Thiago Salomão.