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Camilo Marcantonio: “value investor raiz” lidera fundo que já ganhou mais de 1.000%

Em 2023, até o momento, acumula ganhos de 22%, contra cerca de 8% de alta do Ibovespa. Desde a fundação, a valorização chega a 1.020%

Por Equipe Market Makers

16 ago 2023 11h00 - atualizado em 16 ago 2023 07h57

Os ganhos de mais de 1.000% de Camilo Marcantonio em seu fundo mostram o sucesso de sua estratégia de investimento, que ele mesmo define como “value investing raiz”.

“Estamos sempre procurando distorções entre a nossa avaliação de valor e o preço de mercado pelo qual podemos comprar as ações. Queremos comprá-las sempre barato, que é o value investing raiz”, afirma o gestor em entrevista ao Market Makers.

Sócio-fundador da gestora Charles River, Camilo Marcantonio é um dos convidados do Small Caps Masters, evento 100% gratuito e online que o Market Makers fará entre os dias 22 e 24 de agosto, reunindo os melhores gestores de small caps do Brasil, que vão apontar quais as melhores ideias de investimentos para este momento. Clique aqui para se inscrever.

Criado em 2011, o Charles River FIA iniciou como um clube de investimento sob o nome Precursora. Em 2023, até o momento, acumula ganhos de 22%, contra cerca de 8% de alta do Ibovespa. Desde a fundação, a valorização chega a 1.020%, enquanto o principal índice da bolsa sobe 100% no mesmo período.

Em conversa realizada com o Market Makers antes do evento, Marcantonio explicou melhor sua filosofia e estratégia de investimento, além das histórias de sucesso e erros no mercado nesses mais de 10 anos de gestão. Confira os melhores trechos da entrevista:

Marker Makers – Qual a sua trajetória no mercado financeiro? Como você começou e chegou onde está hoje?

Camilo Marcantonio – Eu sou gaúcho e engenheiro. Saí de Porto Alegre com 17 anos para fazer faculdade no Rio de Janeiro. Fiz IME (Instituto Militar de Engenharia), sou engenheiro eletrônico. A parte que é mais diferente do resto do pessoal é que eu não fiz carreira no mercado financeiro. No início, fui trabalhar na Bain & Company, na empresa de consultoria de estratégia, onde eu fiquei por oito anos. No meio desse período, eu passei dois anos nos Estados Unidos, fiz o MBA na Harvard Business School, que é patrocinado pela Bain. E nisso eu saí já para montar um clube de investimentos, que é o Precursora, a origem da gestora. No final de 2011 começa o clube de investimentos…

MM – E depois que você começou o clube, como que ele virou o fundo?

CM – O clube já foi montado com o objetivo de virar um fundo e com um propósito de investimento profissional, não como um clube de amigos. Então, ele usou e aplicou a mesma filosofia de investimentos desde sempre. Eu estou lá desde o início, desde a cota 1, em 2000. Em 2014, a gente o converteu em fundo e manteve até o nome, a cota também. Basicamente só fez uma conversão de clube para fundo, e seguimos com ele até hoje. Já estamos indo para quase 12 anos de cota, se pegar a parte de clube, ou nove anos se pegar só a parte de fundo.

MM – E qual é a sua filosofia de investimento?

CM – A gente se define como um “value investor raiz”, no sentido de que o que define se uma posição vai entrar no fundo é muito simples: temos um valuation conservador, uma avaliação de risco. Maior risco, maior margem de segurança, menor risco, menos margem de segurança. Se o preço fornece essa margem de segurança suficiente ou maior do que é demandada pelo risco, a gente compra, se não fornece, a gente não compra.

MM – Como as small caps acabam entrando na sua carteira? Quando você procura o que se encaixa dentro da sua filosofia, acaba indo muito para uma small cap?

CM – A primeira coisa que tem que deixar claro é que a gente nunca foi, nem é, focado só em small caps. Não tem nenhuma restrição, nem nunca teve. Temos na nossa carteira hoje Petrobras, Bradesco, diversas empresas grandes. Já tivemos Vale, já tivemos tudo. Dito isso, a gente está procurando sempre distorções entre a nossa avaliação de valor e o preço de mercado pelo qual a gente pode comprar as ações. A gente quer comprá-la sempre barato, que é o value investing raiz, e essas distorções podem acontecer por diversos motivos. Elas acontecem nas large caps também, mas muitas vezes são ainda mais frequentes em ações menos acompanhadas. Então, como ações small caps tendem a ter um acompanhamento menor, muitas vezes a gente acaba encontrando também essas oportunidades em small caps.

MM – E tem alguma diferença quando você avalia uma small cap ou uma large cap antes de comprar?

CM – A gente está olhando para uma empresa. Como a gente está olhando para um negócio, a gente está comprando um pedaço de um negócio. Se ela é líder, ela tem uma posição mais dominante. Muitas empresas grandes são líderes, mas outras empresas, até small caps, são líderes também, são líderes de setores menores. O fato de ela ter um tamanho maior ou menor por si só não importa, a gente vai avaliar ela como uma empresa. Não tem nada fundamentalmente do nosso processo de análise que vai ser diferente entre a gente analisar a Petrobras ou a PetroReconcavo,  que são duas empresas que estão no nosso portfólio, com tamanhos naturalmente muito diferentes, mas a maneira que a gente olha para elas, conceitualmente, é a mesma.

MM – Quais foram os melhores investimentos que você já fez, com os melhores resultados?

CM – Um deles é uma empresa que a gente está investido desde setembro de 2013, a BrasilAgro. A gente já reduziu e aumentou a participação diversas vezes, mas a margem de segurança nunca zerou nesses quase dez anos. Estamos falando de taxas internas de retorno de 20 e poucos por cento ao ano por quase dez anos. A primeira coisa que fizemos lá atrás foi olhar para o agro, um setor que entendíamos que teria bons potenciais de distorção de preço e valor, porque ele é um setor complicado, difícil de analisar, extremamente sujeito a intempéries, e que boa parte do mercado não gosta tanto. 

E olhando dentro do agro, a gente tem um problema fundamental dentro dele, que é plantar em terra madura. É um negócio de baixo retorno sobre capital. Você pega ao longo do ciclo, você planta em terra madura, e tem empresas que fazem isso muito bem, mas o retorno sobre capital ao longo do tempo não é muito elevado, mas a BrasilAgro era um modelo diferente, em que ela compra a terra bem, vende bem, sabe plantar, sabe fazer a correção da terra ao longo do caminho, desenvolver.

O que aconteceu foi que ao longo do tempo a gente conseguiu comprar essa empresa por um valor equivalente a 30%, 40%, 50% de desconto em relação ao preço das terras que ela tinha naquele momento. Ao longo do tempo, ela sempre foi gerando valor, e foi naturalmente distribuindo dividendos.

Outro caso que também foi emblemático, que compramos em 2012, é a Unipar. Ela também é uma empresa líder, um oligopólio natural, que produz cloro e soda cáustica, em um processo bem básico. E é um negócio que depois que tem uma planta, é muito difícil que alguém vá querer colocar uma segunda planta ao lado, não faz muito sentido, porque o cloro não viaja muito bem, ele corre o risco de explodir. Então, você tem um domínio daquela região, uma estabilidade. 

A Unipar passou por uma série de dificuldades, problemas e investimentos complicados no passado, mas quando a gente comprou ela tinha basicamente essa operação. Na época, por todos os problemas do passado dela, foi uma daquelas ações abandonadas na bolsa. A gente comprou a R$ 0,25, depois a ação foi agrupada R$ 1,00. Recebemos uma quantidade absurda  de dividendos ao longo do tempo e terminamos de vender a última ação perto de R$ 100. Mas essa é uma ação que a gente já não tem mais há algum tempo no portfólio,  mas também carregamos ela por cerca de 10 anos. Depois de todos os problemas, foi uma empresa muito bem gerida esses anos todos, muito bem tocada.

MM – Agora do outro lado, qual foi seu pior investimento e qual lição você tirou dele?

CM – Foi o caso da Saraiva. Nós compramos a ação lá atrás com um razoável nível de desconto, na nossa visão conservadora da ação. Ela tinha o negócio de editora e o de livraria, e, naturalmente, não era surpresa para ninguém que a livraria era um negócio decadente. Mas o business de editora era muito bom e também era mal compreendido junto com o negócio da livraria. Então não foi um erro de análise primária, mas o que aconteceu foi que houve troca de gestão e mudou muito o direcionamento e a forma como a empresa era gerida. 

O que a gente tirou dali,  acho que o erro foi subestimar, ou não perceber, o impacto que teria a troca de gestão. Ele causou um redirecionamento, uma mudança das decisões estratégicas da companhia. Se a gente tivesse a visão no exato momento, a gente teria perdido menos, mas saímos da posição antes de perder mais.

MM – Qual a hora exata de vender uma ação, seja quando ela está subindo ou desabando?

CM – Nós somos bem rigorosos com a nossa meta, temos uma avaliação que consideramos conservadora sobre o valor justo da empresa. Mas, naturalmente, essa avaliação é reavaliada, no mínimo, uma vez por semana. Essas reavaliações costumam ser pequenas, porque as coisas não mudam muito de um dia para o outro, mas está sendo constantemente reavaliado. E conforme vai reduzindo a margem de segurança, ou seja, conforme o preço vai se aproximando dessa nossa avaliação de valor justo, vamos reduzindo a posição. Quando o preço chega no valor justo, a gente vende a nossa última ação, e não existe nenhuma discussão sobre o que vai acontecer com a ação depois,  se ela vai continuar subindo ou não. Aliás, como o nosso valuation é conservador, o que tende a acontecer é que ela vai subir depois que a gente vende a nossa última ação. Estamos totalmente preparados.  

Sobre investimento em geral, eu diria duas coisas que são até complementares. A primeira é que você tem que ter uma forma de investir, tem que saber o que está fazendo. Se eu sou um value investor e eu estou comprando uma coisa  porque eu acredito que ela é barata, eu só posso ter aquela coisa no meu portfólio  enquanto ela é barata.

A segunda coisa que eu diria é que para ser um bom investidor, tudo é controle emocional. Se você não tem um bom controle emocional sobre a sua maneira de investir, delegue ao máximo a sua decisão de investimento. Esquece, joga fora a senha do home broker, coloca num fundo de investimento e esquece. Crie todos os mecanismos, processos e regras para que você não seja vencido pelas suas emoções. Se você ganha confiança que aquilo que faz funciona, ou tende a funcionar a longo prazo, é mais fácil ser fiel àquilo e não ser tomado pelos fatores emocionais. Dito isso, somos todos humanos, às vezes a gente erra,  seja por uma questão intelectual ou emocional. Temos que saber nos perdoar quando cometemos erros. Ao mesmo tempo temos que aprender com ele e tentar minimizar a chance de que eles aconteçam novamente no futuro.

MM – O que você diria para um investidor que ainda está só em renda fixa, que tem medo de entrar na renda variável?

CM – Você tem que investir pensando no longo prazo. Se não, vai sair no pior momento possível. Tem que investir em algo que saiba que não vai sair no pior momento, porque renda variável é variável e vai cair. O que eu sempre digo é o seguinte: pensa quantos por cento deveria investir. Deveria ser um valor que se cair pela metade, por exemplo, você não vai entrar em pânico. Tente ser até mais conservador, que se um negócio caísse 70%, 80%, você ainda conseguiria não entrar em pânico, não resgatar.

Eu sempre digo: entre pequeno, o investidor tem que se acostumar, tem que entender a perda, entender os ciclos. No início, a grande sugestão que eu dou sempre é: invista em alguma coisa que você tem confiança que não vai sair quando acontecer algo ruim, e aí vai para o longo prazo. E quem fica no longo prazo, as chances de ter uma boa experiência, bons retornos com a renda variável,  aumentam substancialmente.

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